Por Paulo Nunes
No início do século passado, Jung (2011) definiu o herói como um dos mais nobres símbolos da nossa cultura, o retratando como ser que, apesar de desempenhar feitos extraordinários, carrega sempre consigo uma dor. Outra de suas características marcantes é a de ser um peregrino, pois na maioria dos casos o herói é um órfão que, não tendo lar nem pais, vagueia pelo mundo fazendo seu nome conhecido por todos. Um exemplo dentre inúmeros é o do maior samurai da história do Japão, Miyamoto Musashi: órfão de mãe, criado pelo pai violento, rebelou-se na adolescência e vagou pelo Japão medieval desafiando os maiores espadachins da sua época para duelos de vida ou morte, não tendo perdido um duelo sequer (YOSHIKAWA, 1999).
A obra de Elomar Figueira Mello, baiano do sertão de Vitória da Conquista, é um rico encontro musical de opostos: o erudito encontra o regional popular, o europeu medieval encontra o brasileiro nordestino, o cantado nas cortes encontra o cantado nas feiras. Nesta obra estão presentes os temas típicos da jornada medieval do herói andarilho, errante, do amor cortês e da adoração da mulher ou mãe.
No cancioneiro regional brasileiro, o herói é o cantador ou o repentista, que carrega no peito uma “mazela” e sai pelo mundo cantando, como podemos ver nestas estrofes de Elomar:
Vou cantar no “canturi” primeiro
as “coisa” lá da minha “mudernage”
que me fizeram errante violeiro
eu falo sério e não é vadiagem
(“Violeiro”, 1972)
Todo cantador errante traz “nos peito” uma mazela
“nas alma” lua minguante, estrada e som de cancela
fonte que ficou distante, que matava a sede dela…
(“Auto da Catingueira”, 1983)
Em “Suíte Correnteza”, Geraldo Azevedo canta:
“Corra não pare, não pense demais
Repare essas velas no cais
Que a vida é cigana…”
Neste pot-pourri das músicas Caravana, Talismã e Barcarola do São Francisco, Geraldo Azevedo fala de alguém que abandona sua terra natal para viver uma vida “cigana”, em busca de algo que não sabe o que é nem onde se encontra:
“Eu, em sonho um beija-flor
Rasgando tardes vou buscar
Em outro céu
Noite longe!
Noite longe que ficou em mim
Quero lembrar
Era um domingo de Lua
Quando deixei Jatobá
Era quem sabe a esperança
Indo à outro lugar
Barcarola do São Francisco
Velejo agora no mar
Sem leme, mapa ou tesouro
De prata ou luar”
Ao falar do herói mesopotâmico Gilgamesh, Jung diz que este “peregrina mundo afora levado pelo medo e pela nostalgia, à procura da imortalidade” (JUNG, 2011). Exatamente assim é a jornada dos heróis religiosos, dos guerreiros cristãos das Cruzadas ou seus adversários mouros (mulçumanos), ambos seguindo a máxima cristã: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo Evangelho salva-la-á! Portanto, de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:35-36).
A busca pela salvação da alma é o motivo para que o andarilho despreze a vida mundana ordinária, as realizações habituais de um ser humano. Porém, para Jung, isto reflete apenas a busca instintiva, arquetípica, pela mãe perdida: “Os heróis frequentemente são peregrinos: a peregrinação é uma imagem da nostalgia, do anseio nunca aplacado que em parte alguma encontra seu objeto, da procura pela mãe perdida” (JUNG, 2011). Este tema está claro em “Travessia”, de Milton Nascimento e Fernando Brant:
“Quando você foi embora fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha e nem é meu este lugar
Estou só e não resisto, muito tenho pra falar
Solto a voz nas estradas, já não quero parar…”
Ou no 5º Canto (Desafio) do Auto da Catingueira, de Elomar:
“(…) tem
que saber, sofrer, esperar
‘mermo’ sabendo que ‘num’ vêm
as coisa do seu ‘sonhá’
Na estrada dos ‘disingano’
Andei de noite e de dia
‘Apois’ sim, tá certo: ‘vamo’
cantar qualquer cantoria…
Na estrada dos ‘disingano’
Andei de noite e de dia
‘Inludido, percurano’
‘aprendê’ o que ‘num’ sabia
Quando eu era moço, um dia
‘Arrisolvi’ sair andando
‘Pula’ estrada da alegria
A alegria ‘percurano’
‘Curri’ doido, atrás dela
Entrou ano, saiu ano
Bati mais de mil cancela,
na estrada dos ‘disingano’… ”
O sentimento de abandono, a desilusão ou desengano provocados pela perda abrupta da comunhão perfeita com a mãe é a grande mazela do herói errante, que então projeta na mulher amada o anseio da união sagrada com a mãe perdida. Em “O Cavaleiro na Torre”:
“Fria e escura é a cela
e alta é a torre do castelo
‘mia’ madre ‘mia’ querida
vou indagando às andorinhas
pra saber de tua vida
madre amiga, a vida minha
ficou má ficou ruim
e nossa vida era tão linda
nos campos do São Joaquim
‘malas’ noites má ‘drumida’
oh madre querida
não esqueças de mim…”
A idealização da mulher amada como substituta psíquica da mãe perdida é encontrada em toda a obra do compositor baiano. Em Cantiga de Amigo, ele diz:
“Lá na Casa dos Carneiros, onde os violeiros,
Vão cantar louvando você.
Em cantigas de amigo, cantando comigo,
Somente porque, você é,
Minha amiga mulher,
Lua nova do céu que já não me quer.
Dezessete é minha conta,
Minha amiga conta
Uma coisa linda pra mim;
Conta os fios dos seus cabelos,
Sonhos e anelos,
Conta-me se o amor não tem fim
Madre amiga é ruim
Me mentiu jurando amor que não tem fim.”
A figura arquetípica da contraparte feminina do homem, a anima ou “alma gêmea”, que funde numa só imagem as versões femininas encontradas pelo indivíduo ao longo da vida (mãe, irmã, amiga, amante) é então procurada em toda a parte. Em O Rapto de Joana do Tarugo:
“Enfrentei fosso muralha e os ferros dos portais
Só pela graça da gentil senhora
Filtrando a vida pelos grãos de ampulhetas mortais
D’além de trás dos montes venho
Por campos de justas honrando este amor
Me expondo à sanha sanguinária de côrtes cruéis
Enfrentei vilões no Algouço e em Senhores de Biscaia
Fidalgos corpos de armas brunhidas
Não temo escorpiões, cruéis carrascos, vosso pai
Enfreado à porta de castelo
Tenho meu murzelo ligeiro e alazão
Que em lidas sangrentas bateu mil mouros infiéis
Ó Senhora dos Sarsais
Minh’alma só teme o Rei dos reis
Deixa a alcova vem-me à janela
Ó Senhora dos Sarsais
Só por vosso amor e nada mais
Desça da torre Naíla donzela…”
Aqui também se confirma, na referência às jornadas dos cavaleiros medievais nas Santas Cruzadas (“Tenho meu murzelo ligeiro e alazão / Que em lidas sangrentas bateu mil mouros infiéis”), o tema pela jornada católica contra os mulçumanos pela salvação da alma, em nome da sagrada Mãe Igreja.
A saudade do cantador às vezes parece ser pela terra natal, mas a melancolia, a nostalgia por algo que se perdeu precede a época da sua partida, como bem explica Elomar em “Função”:
“Quando eu era ‘minino’ a vida era ‘manêra’
não pensava na vida junto da fogueira
brincando com os ‘irmão’ a noite inteira
sem me dar que esse tempo bom ‘havera’ de passar
e a saudade me chegar, essa fera
quem pensar que esse bicho é da cidade
se engana, a saudade nasceu cá no sertão
na beira da fogueira de São João…”
Na rara composição de Elomar em ritmo de Baião, fica claro que o que se perde é uma certa completude, porém, inconsciente, própria da infância – tema que foi estudado à exaustão pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott. A jornada heróica, ao tratar da perda literal ou simbólica da mãe, fala da perda precoce da inocência da infância, fato típico da psicologia dos órfãos. De modo mais geral, esta perda é inerente a todo ser humano que, ao conquistar a consciência, nunca mais se sentirá completo como sentia-se na infância ou no ventre materno. A consequência da aquisição da consciência é a expulsão do paraíso da inconsciência animal, como retrata alegoricamente o mito do Éden, no livro de Gênesis. Sem a proteção da inconsciência e impelidos pela busca incessante do autoconhecimento, nos identificamos com o herói que peregrina pelo mundo enquanto carrega a nostalgia por um tempo que não voltará jamais.
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Paulo Nunes – Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA. Atendimentos em Salvador. Contato: (71) 98355-6564 (Telefone e Whatsapp). Instagram.com/jungexplica
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AZEVEDO, G. Geraldo Azevedo. Rio de Janeiro: Som Livre, 1977.
BÍBLIA ONLINE. https://www.bibliaonline.com.br. Acesso em 23 de abril de 2017.
JUNG, C. G. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
MELLO, E. F. Auto da Catingueira. Vitória da Conquista: Rio do Gavião, 1983.
MELLO, E. F. Cartas Catingueiras. Vitória da Conquista: Rio do Gavião, 1982.
MELLO, E. F. Das barrancas do Rio Gavião. Salvador: J.S. Gravações Bahia, 1972.
MELLO, E. F. Na Quadrada das Águas Perdidas. São Paulo: Discos Marcus Pereira, 1979.
NASCIMENTO, M. Travessia. Rio de Janeiro: Ritmos-Codil, 1967.
YOSHIKAWA, E. Musashi. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.